A pré-candidata ao Senado, Márcia Bittar, abraçou a pauta contra a chamada ‘ideologia de gênero’ como norte de sua campanha, mas a falta de domínio sobre o assunto sempre a coloca em saias justas. Não é a primeira vez que digo nesta coluna que a estratégia é claramente se apresentar como uma ‘candidata de Deus’ perante aos candidatos ‘do Diabo’.
A tática é semelhante a que elegeu o presidente Jair Bolsonaro. Felizmente, o cenário está bem diferente do que vimos em 2018. O preço dos produtos nas prateleiras dos supermercados, o valor do combustível e a perda de poder aquisitivo de uma população que só vê o país afundar faz com que seja preciso bem mais do que ajustes religiosos para definir o voto em outubro.
Acontece que Márcia não só usa da estratégia, como abusa. Nem mesmo Bolsonaro ousou dizer tão diretamente que professores ensinam alunos que ‘incesto’ é uma coisa normal. Posteriormente, ela também tentou ganhar a simpatia da classe evangélica revelando que faz exercício de imaginar o ‘menino Jesus’ em seu ventre.
A fala da vez foi em entrevista dada ao jornalista Antonio Muniz no Programa da Tarde, da TV Rio Branco, nesta terça-feira, dia 17. Márcia foi convidada para falar sobre ideologia de gênero e informar quais estabelecimentos de ensino usam a doutrina, já que ela chegou a fazer a “denúncia” sem provas. Diferente do que todos esperavam, Márcia citou o exemplo da Escócia, país que integra o Reino Unido.
“Na Escócia agora já foi aprovado que criança já pode receber ideologia de gênero, onde um dia ela pode chegar João, outro dia ela pode chegar Maria. E se ela chegar para o pai e disser: olha, a professora disse que eu sou menina ou menino. O pai disser: você é menino. Você nasceu com órgão masculino. Esse menino volta pra escola, a escola pode processar o pai. Isso na Escócia”.
É fácil perceber que a visão de Márcia sobre ideologia de gênero se resolve a “Deus não gosta”. Ao negar a necessidade de acolhimento para crianças transgêneras, a pré-candidata tenta tirar das pessoas o livre-arbítrio dado pelo próprio Deus.
MAL EXPLICADO
A Escócia é considerado o país mais progressista da Europa, de fato. Mas a lei aprovada por seu parlamento não é nos moldes do que foi explicado por Márcia. O que acontece é que em agosto de 2021, o governo do país britânico lançou uma cartilha com orientações para profissionais da educação chamada “Apoiando Alunos Transgêneros nas Escolas: Orientação para Escolas Escocesas”, a cartilha – que pode ser lida no site do Governo escocês – tem objetivo aconselhar professores e funcionários da escola em como proceder ao lidarem com algo real e que não pode ser ignorado: jovens trans e não conformes com o gênero no ambiente escolar.
A medida visa combater a discriminação sofrida, tanto no ambiente escolar, como em casa. O aluno, a partir dos 4 anos, pode comunicar a escola que não se identifica com o gênero em que nasceu e recebe acolhimento e orientação (medida que vale apenas dentro da escola). O documento reconhece a importância de “espaços seguros e de privacidade” para meninas e meninos nas escolas. O que a cartilha sugere é que caso algum aluno manifeste o desejo de ser chamado informalmente por outro nome, o professor pode acrescentar no livro de chamadas algo do tipo “conhecido como” ao lado do seu nome de registro.
Embora o sigilo inicialmente também valha para os pais, para que os alunos possam ter segurança até que decidam abordar o assunto em casa, eles sequer podem fazer a transição sem autorização. A lei escocesa é clara ao dizer que pessoas menores de 16 anos podem fazer transição de gênero APENAS se o pai, mãe ou responsável legal autorize através de uma declaração assinada e oficializada em um tribunal. O e-farsas inclusive já desmentiu o mesmo boato.
Há, claro, quem apresente contraprovas de que a medida adotada pelo governo escocês é ineficaz, inclusive entre parlamentares e representantes de movimentos LGBTQIA+. Mas esse não é o X da questão, o compromisso aqui é o combate à desinformação prestada.
Márcia Bittar também citou exemplos rasos em Sobral, no Ceará e em Rondônia. Mas como vem feito, não apresentou provas mais especificas no programa.




















