CRÔNICA

Crônica: Seu Chico


Seu Chico hoje conta com seus 65 anos, e sem aposentadoria, ainda precisa labutar para ajudar no sustento da família. Todos os dias, atravessa a pé a passarela Joaquim Macedo, empurrando um carrinho de picolé, indo perambular por horas pelas ruas do centro de Rio Branco na tentativa de levar, no fim do dia, algum trocado para casa.

Ontem, ao meio-dia, parou para descansar um pouco em um banquinho da praça da Revolução. Passando ali, não pude deixar de percebê-lo e me comover com aquela figura esquálida e suada sob o sol a pino. Sentei-me ao seu lado e puxei assunto. Depois, não precisei mais buscar. Ele, como um típico idoso desses que bem conhecemos por estas terras, conversador e cheio de simpatia, foi contando, sem reserva, tudo sobre sua vida. Enxugando a testa suada com um lenço de tecido xadrez, também reclamou do calor escaldante que o tem fatigado ainda mais em sua peregrinação diária.

Com a voz carregada de nostalgia, Seu Chico foi narrando como eram intensas e duradouras as “friagens” por aqui e como cresceu vendo de cima do barranco as grandes embarcações que navegavam nas águas caudalosas do rio Acre na maior parte do ano. “Dá uma tristeza todo dia, quando eu atravesso a passarela, ver o rio quase seco lá embaixo! Daqui a pouco não vai mais ter rio. A gente consegue atravessar ele andando de um lado pro outro. Se acabou tudo com esse sol danado, que nem deixa mais ter chuva e friagem aqui. E os picolés, que derretem dentro do carrinho, meu filho!” Estas foram suas últimas frases, antes de se levantar e voltar à labuta.

É isso mesmo, seu Chico, o contraste da paisagem vem nos admirando e assustando. As águas impiedosas, que em abril castigaram milhares de acreanos com a cheia de rios e outros mananciais, de repente se foram, evaporaram no ar! Hoje a configuração da paisagem na região é de seca e calor. Culpa do El niño? Também! Ele tem nos castigado, e a estiagem, segundo previsões de especialistas, deve se prolongar pelos próximos meses, atrasando o início da estação chuvosa, o nosso inverno amazônico, que começaria a partir deste mês de outubro. Atualmente, o índice pluviométrico em nossa região é de baixíssima precipitação, o que tem deixado o nível do rio Acre há quase dois meses abaixo de dois metros em Rio Branco. Este fenômeno tem afetado o abastecimento de água potável para milhares de rio-branquenses.

E a outra parte da culpa do problema, seria de quem? Seu Chico responderia de pronto: “É do homem, meu filho, é ele que vem maltratando a natureza. E Deus castiga! Quando não é com o absurdo de água, é com a falta dela!”

Hannah Lydia, jornalista, fotógrafa e artista.

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