Todo mundo que passa pela ponte Juscelino Kubitschek em direção à Gameleira, já deve ter notado na curva essa casa com arquitetura histórica, aparentando ser bem antiga e com um certo aspecto de um lugar pouco frequentado e calmo. Mas seus avós, com certeza não têm essa visão. Ah, se as paredes falassem… Entre os anos 1920 e 1960, aquele era um dos lugares mais movimentados de todo o Estado do Acre, do carnaval, aos bailes de formatura, muitas pessoas passam por ali sem saber que aquele, foi o primeiro clube de Rio Branco.
A ORIGEM
A história do Acre é sempre contada com muito trabalho, suor, esperança de famílias vindas do Nordeste, lutas contra as tropas bolivianas, verdadeiros pioneiros que viam nestas terras o futuro, a tão sonhada mudança de vida. Mas nem só de trabalho vive o homem, no início dos anos 1920, algumas famílias tentavam criar um clube recreativo para Rio Branco, o que não era uma tarefa fácil para conseguir a autorização, eles queriam um lugar onde pudessem confraternizar e bailar numa capital que ainda estava em suas origens.
Foram quatro anos de tentativa, até que o filho do major João Donato de Oliveira, um dos revolucionários que contribuíram para que o Acre fosse brasileiro, liderou um grupo que conseguiu concretizar o projeto, ele era um riobranquense de nascimento, poeta, jornalista, advogado, professor e orador, era chamado de Dr. Mário de Oliveira.
O NOME
Após várias tentativas de conseguir a liberação para o clube recreativo nesses quatro anos, nada seria mais justo do que escolher um nome que representasse essa perseverança, Tentamen, é uma palavra que em latim se refere ao ato de tentar, é o plural da palavra tentativa. Nasce então em 1924, a Sociedade Recreativa Tentâmen.
O AUGE
Seringueiros, comerciantes e seringalistas eram o público que mais comparecia aos bailes realizados lá, assim como os jovens das famílias tradicionais da cidade. O Tentamen foi palco de grandes eventos sociais, como formaturas, jantares importantes, aniversários, festas juninas, baile das flores na primavera e, principalmente, os bailes carnavalescos que movimentavam toda a cidade. Ou vai dizer que você nunca ouviu algum ancião no Acre falar com saudade dos carnavais da Tentâmen?
Dona Celeste Farias, conta como era a época: “Como eu era uma das moças mais jovens, não podia entrar nas festas. Os organizadores eram bastante rigorosos, e por isso eu chorava muito. Assistia a tudo lá do hotel do meu pai, que ficava em frente à Tentamen. Até que chegou meu dia, e para mim foi uma alegria. Eu brinquei muito na Tentamen. Meu primeiro baile e até meu casamento foram aqui”, disse em entrevista dada em 2016.

O ABANDONO
Depois do seu auge, os anos 1970 vieram como a época de ouro das discotecas, a modernidade começava a chegar pelas bandas de cá e a velha Tentamen foi ficando na memória e abandonada. Mas com uma intensa mobilização social, em 1984 passou por uma recuperação, e após o fim da reforma, a administração foi entregue para a então Fundação de Desenvolvimento de Recursos Humanos da Cultura e do Desporto, que em 1999, passou a ser Fundação Elias Mansour (FEM).
PATRIMÔNIO HISTÓRICO E CULTURAL
No primeiro semestre de 2016, o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), reconhecendo a importância histórica do lugar, entregou ao governo do Acre o termo de convênio que garantia o estudo para restauração da Tentamen e abertura dos processos de tombamento, e finalmente, no dia 15 de janeiro deste ano, a Tentâmen se tornou Patrimônio Histórico e Cultural do Acre.
RECUPERAÇÃO
O Governo, por meio da Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM), assinou nesta quinta-feira (7), a ordem de serviço referente a obras na Tentamen. O projeto de recuperação está orçado em R$ 689,8 mil, e foi elaborado pela própria FEM, em decorrência de um edital de fundo de direitos difusos do Ministério da Justiça e Segurança Pública.




















