O vereador N. Lima, do Progressistas, que é o atual presidente da Câmara de Rio Branco, usou a tribuna na sessão desta quarta-feira para defender a pena de morte no Acre, usando como gancho os dois casos de feminicídio da última segunda-feira.
O presidente do parlamento municipal citou os EUA como exemplo. Não sei o que seria mais fora de hora nessa defesa sem sentido, o fato de um vereador defender em tribuna algo que não é de sua competência; o de falar como se o Acre fosse um estado autônomo, como acontece no país norte-americano ou o fato de ter ignorado completamente que os dois assassinos citados já estão mortos.
Os casos a que ele se referiu foram o de Tatiana Nery, de 33 anos, gerente de uma agência financeira em Acrelândia e Maria Samara, de 19 anos, moradora do município de Feijó. As duas foram covardemente assassinadas na última segunda-feira por seus ex-companheiros que não aceitavam o fim dos relacionamentos.
N. Lima pode até acreditar que apesar dos responsáveis por esses dois assassinatos estarem mortos, a pena de morte possa servir para evitar que outros casos similares aconteçam. Ledo engano, não é incomum noticiar crimes dessa natureza que são seguidos de suicídio, o que mostra que a morte como consequência não é algo que possa com eficácia impedir que os feminicídios aconteçam.
Uma pesquisa do Ministério Público aponta que 59% dos autores dos feminicídios eram companheiros ou ex das vítimas. Entre os motivos estão ciúmes ou não aceitarem a separação. Existem várias razões que poderiam levar alguém a matar outra pessoa que um dia já disse que amava, mas o que praticamente todos os casos têm em comum é o fato do homicida ser tomado por emoções, como a raiva, agindo de forma descontrolada. Geralmente, esse é o fator que os leva a ignorar as consequências. A questão é: se alguém vai matar sem medo de morrer, no que exatamente uma pena de morte resolveria?
Segundo a ativista Lidianne Cabral, não há uma política de Estado para que a sociedade possa combater o machismo, que cria a posse do homem sobre a mulher e pode ser um ponto de partida para o problema.
— “Falta dar mais segurança para a mulher denunciar, e, mesmo quando denuncia, as medidas protetivas são falhas e levam muitas mulheres a perder a vida”, disse.
Em alguns trechos da fala, N. Lima deixa a entender que a crítica é na verdade apenas uma ponte para um ataque aos desafetos políticos, como quando comparou os feminicídios a um caso de estupro de vulnerável que teve conhecimento quando era deputado estadual. Embora os dois tipos de crimes sejam abomináveis, são problemas que devem ser tratados de formas diferentes, pois possuem motivações e causas diferentes.
Crimes contra pessoas inocentes chocam a população e políticos não estão isentos de sentirem a dor. Mas é bastante lamentável ver um legislador que ocupa cargo de presidente de parlamento com visões tão superficiais e rasas de problemas que precisam de urgente atenção.




















