Governo Donald Trump Resgata Princípio Criado em 1823 e Sinaliza que os Estados Unidos Pretendem Reafirmar sua Influência sobre o Continente Americano
A frase escolhida pelo governo de Donald Trump para apresentar sua atual política para o continente americano dificilmente poderia ser mais direta: “A dominância das Américas nunca será questionada de novo”. A declaração aparece em um vídeo divulgado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos que recupera a história da Doutrina Monroe e a apresenta como um dos pilares da estratégia norte-americana para o hemisfério.
Publicado na terça-feira (11), o vídeo tem cerca de cinco minutos e meio e é apresentado pelo embaixador dos EUA no Panamá, Kevin Marino Cabrera. A produção percorre acontecimentos que vão do século 19 aos dias atuais e inclui uma referência à captura de Nicolás Maduro, em janeiro deste ano, como parte da trajetória da política norte-americana na região.
O movimento representa uma mudança significativa no discurso de Washington. Em 2013, durante o governo Barack Obama, o então secretário de Estado John Kerry havia declarado que “a era da Doutrina Monroe acabou”. Mais de uma década depois, a expressão volta ao centro da política externa dos Estados Unidos.
O Que é a Doutrina Monroe
Criada em 1823 pelo então presidente James Monroe, a doutrina surgiu em um contexto de disputas entre as potências europeias e as novas nações independentes das Américas.
Em seu discurso presidencial daquele ano, Monroe advertiu que qualquer tentativa de países europeus de ampliar seus sistemas políticos para o continente americano seria considerada uma ameaça à paz e à segurança dos Estados Unidos.
A ideia ficou resumida na conhecida expressão “América para os americanos”.
Na prática, os Estados Unidos defendiam que as potências europeias não deveriam interferir politicamente ou militarmente no continente. Em contrapartida, Washington se comprometia a não se envolver nas disputas internas da Europa.
Com o passar das décadas, porém, a doutrina ganhou novas interpretações e passou a ser utilizada como justificativa para ampliar a influência dos Estados Unidos sobre países da América Latina e do Caribe.
Do Princípio de Não Intervenção ao “Big Stick”
Uma das principais reinterpretações ocorreu durante o governo de Theodore Roosevelt.
Em 1904, o chamado Corolário Roosevelt ampliou a interpretação da Doutrina Monroe e estabeleceu que os Estados Unidos poderiam intervir nos assuntos de países latino-americanos considerados incapazes de cumprir suas obrigações internacionais.
A política ficou associada à expressão “Big Stick”, ou “grande porrete”, que simbolizava a combinação entre diplomacia e possibilidade de intervenção.
Ao longo do século 20, Washington realizou ou apoiou diferentes formas de intervenção política, econômica e militar na América Latina, especialmente no Caribe e na América Central.
Por isso, a Doutrina Monroe passou a ser vista por muitos governos e analistas latino-americanos não apenas como uma política de proteção do continente contra potências externas, mas também como uma ferramenta de projeção de poder dos Estados Unidos.
Por Que Trump Resgata a Doutrina Agora?
A retomada do discurso ocorre em um cenário internacional diferente daquele de 1823.
Hoje, a principal disputa de influência no continente não envolve apenas as tradicionais potências europeias. A China tornou-se um dos principais atores econômicos e estratégicos da América Latina, ampliando sua presença em comércio, investimentos, infraestrutura, energia e mineração.
A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos também considera questões originadas na América Latina, como imigração e tráfico de drogas, diretamente relacionadas à segurança norte-americana.
Nesse contexto, a administração Trump apresenta o continente americano como uma área estratégica para os interesses dos Estados Unidos.
O discurso representa, portanto, uma espécie de atualização da Doutrina Monroe: se no século 19 o objetivo era impedir o avanço das potências europeias, no século 21 uma das preocupações centrais de Washington é impedir ou limitar a expansão da influência de rivais como a China.
Trump Amplia Aproximação com a Direita Latino-Americana
A retomada da Doutrina Monroe ocorre paralelamente a uma maior aproximação do governo Trump com setores políticos de direita na América Latina.
O presidente norte-americano demonstrou apoio a aliados de Javier Milei na Argentina durante as eleições legislativas de 2025. Também declarou apoio a Abelardo de la Espriella, eleito presidente da Colômbia em 2026.
Esses movimentos reforçam a percepção de que Washington pretende construir uma rede de governos politicamente alinhados aos interesses norte-americanos.
A estratégia, contudo, não se limita à afinidade ideológica. Questões como segurança, combate ao narcotráfico, imigração, comércio, energia e competição com a China também estão no centro da relação dos Estados Unidos com os países latino-americanos.
A Captura de Maduro e a Mensagem de Washington
A referência a Nicolás Maduro no vídeo do Departamento de Estado é particularmente significativa.
A captura do líder venezuelano é apresentada pela produção como parte de uma política norte-americana que atravessa diferentes períodos históricos.
Ao associar um acontecimento contemporâneo à Doutrina Monroe, o governo Trump estabelece uma ligação direta entre a política externa formulada no século 19 e suas atuais ações no hemisfério.
A mensagem transmitida por Washington é que os Estados Unidos pretendem exercer novamente um papel central na definição dos rumos políticos e estratégicos do continente.
O Fim da Doutrina Monroe — e seu Retorno
A história recente mostra uma mudança clara no discurso oficial norte-americano.
Em 2013, John Kerry afirmou que a “era da Doutrina Monroe acabou”, sinalizando uma tentativa do governo Obama de afastar a imagem de que a América Latina seria tratada como uma área de influência exclusiva dos Estados Unidos.
A política externa norte-americana passou, naquele período, a enfatizar relações mais cooperativas e a rejeitar formalmente a ideia de que Washington teria autoridade especial sobre os demais países do continente.
A declaração de Trump representa uma ruptura discursiva com essa abordagem.
Ao recuperar explicitamente a Doutrina Monroe, a atual administração recoloca no centro da política externa a ideia de que o hemisfério ocidental possui importância estratégica prioritária para os Estados Unidos.
Reações Dividem os Estados Unidos
A mensagem do Departamento de Estado também provocou reações distintas dentro dos próprios Estados Unidos.
Democratas criticaram o tom utilizado pelo governo, enquanto integrantes da base republicana defenderam a política e adotaram uma postura mais contundente diante de países e governos que possam se opor aos interesses de Washington.
A expressão “dominância das Américas” é especialmente sensível porque sugere uma relação de poder que vai além da simples cooperação entre Estados soberanos.
Para críticos, o discurso pode representar o retorno de uma política intervencionista. Para seus defensores, trata-se da reafirmação do papel histórico dos Estados Unidos como principal potência do hemisfério e de uma estratégia para proteger interesses nacionais diante da presença crescente de potências estrangeiras.
América Latina entre Washington e Pequim
A disputa pela influência na América Latina ganha uma dimensão ainda maior diante do avanço econômico da China.
Pequim tornou-se um importante parceiro comercial de diversos países da região e ampliou sua presença em setores estratégicos.
Para Washington, esse avanço representa um desafio geopolítico.
A América Latina possui recursos naturais relevantes, posição estratégica, mercados consumidores e proximidade geográfica com os Estados Unidos. Para a Casa Branca, manter influência sobre esses países significa também reduzir o espaço para a atuação de concorrentes globais.
A nova versão da Doutrina Monroe, portanto, pode ser entendida dentro de uma disputa mais ampla pela influência econômica, política e estratégica no hemisfério ocidental.
Uma Doutrina de Mais de 200 Anos Volta ao Centro do Debate
Mais de dois séculos depois de James Monroe apresentar sua política externa, a doutrina que leva seu nome voltou ao centro da discussão internacional.
A grande diferença é que o mundo de 2026 não é o mesmo de 1823.
As ameaças percebidas por Washington mudaram, os atores internacionais se multiplicaram e a América Latina possui relações econômicas cada vez mais diversificadas.
Ainda assim, a mensagem do governo Trump é inequívoca: os Estados Unidos consideram o continente americano uma área prioritária de seus interesses estratégicos e não pretendem aceitar passivamente a perda de influência na região.
A declaração sobre a “dominância das Américas” abre, assim, um novo capítulo de uma antiga disputa sobre os limites do poder norte-americano no hemisfério
O Que Está em Jogo para a América Latina?
A retomada do discurso da Doutrina Monroe pode produzir consequências em diferentes áreas:
- Geopolítica: maior pressão dos EUA sobre governos considerados adversários ou próximos de potências rivais.
- Economia: disputa por investimentos, comércio e recursos estratégicos.
- Segurança: ampliação da cooperação — ou da pressão — em temas como narcotráfico e imigração.
- China: aumento da competição entre Washington e Pequim pela influência regional.
- Soberania: debate sobre até onde os Estados Unidos podem exercer influência sobre decisões internas de outros países.
- Alinhamento político: aproximação de Washington com governos e movimentos de direita na região.
O Novo Mapa de Influência do Continente
A volta da Doutrina Monroe ao discurso oficial norte-americano não significa simplesmente a reprodução da política adotada no século 19.
Ela representa, sobretudo, a tentativa de adaptar uma antiga concepção geopolítica a um mundo marcado pela competição entre grandes potências.
O ponto central é que Washington parece estar deixando para trás a ideia de que sua influência sobre a América Latina pode ser considerada garantida.
Ao afirmar que a dominância norte-americana “nunca será questionada de novo”, o governo Trump transforma a disputa por influência no hemisfério ocidental em uma questão explícita de política externa.
Para os países latino-americanos, o desafio será administrar essa nova realidade sem abrir mão de sua autonomia diplomática, enquanto equilibram relações com Estados Unidos, China e outras potências.
O retorno da Doutrina Monroe, portanto, não é apenas uma referência histórica. É também um sinal de que a disputa pelo poder nas Américas entrou novamente no centro da agenda internacional.




















