Foto: Arquivo público/DF
Documento da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos Contraria Versão Oficial do Acidente e Sugere Atentado Contra o Ex-Presidente Juscelino Kubitschek
A morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek voltou ao centro do debate político e histórico brasileiro após um relatório da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) apontar que JK pode ter sido assassinado pela ditadura militar — e não vítima de um acidente automobilístico, como sustentado oficialmente há quase cinco décadas.
A informação foi revelada inicialmente pela Folha de S.Paulo e confirmada pela TV Globo nesta sexta-feira (8). O parecer, elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, possui mais de cinco mil páginas e ainda precisa ser aprovado pelos integrantes da comissão para se tornar a posição oficial do colegiado.
Juscelino Kubitschek morreu em 22 de agosto de 1976, em um acidente na Rodovia Presidente Dutra, na altura de Resende (RJ), enquanto viajava de São Paulo para o Rio de Janeiro.
Relatório da Comissão Questiona Versão Histórica sobre a Morte de JK
O novo documento da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos representa uma possível reviravolta em um dos episódios mais polêmicos da história política brasileira.
Segundo o relatório, há elementos suficientes para contestar a narrativa oficial construída durante a ditadura militar, que atribuiu a morte de JK a um acidente de trânsito envolvendo um ônibus e uma carreta.
A relatora Maria Cecília Adão utilizou como base:
- Investigações anteriores;
- Documentos públicos;
- Relatórios técnicos;
- Estudos produzidos pelo Ministério Público Federal (MPF);
- Perícias independentes sobre o acidente.
Entre os principais elementos considerados está o laudo do engenheiro e perito Sergio Ejzenberg, produzido em 2019 para o MPF. O especialista rejeitou a hipótese de colisão entre o Opala de JK e um ônibus antes da batida fatal contra uma carreta.
Comissão Ainda Vai Votar Parecer sobre o Caso
Apesar da repercussão nacional, o relatório ainda não foi oficialmente aprovado pela Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.
Em nota, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania afirmou:
“Ressalta-se que o relatório em questão segue em análise pelos membros da Comissão e ainda não foi submetido à votação.”
O documento chegou a ser apresentado na 7ª Reunião Ordinária da comissão, realizada em 1º de abril. Entretanto, devido ao grande volume de anexos e à necessidade de comunicação prévia com os familiares do ex-presidente, a votação foi adiada.
Até o momento, não há data definida para a deliberação final.
Neta de JK Fala em “Passo Importante para a Verdade Histórica”
A presidente do Memorial JK e neta do ex-presidente, Anna Christina Kubitschek, afirmou que a reabertura do debate representa um avanço importante para a memória política do país.
Em nota oficial, ela declarou:
“A reabertura do debate sobre a morte de meu avô Juscelino representa um passo importante para a verdade histórica no Brasil.”
Anna Christina também relembrou circunstâncias que considera suspeitas envolvendo a morte do ex-presidente.
“Uma semana antes da tragédia, estava ao lado de minha mãe Márcia, no Rio de Janeiro, quando recebemos a notícia da morte de meu avô em um acidente automobilístico, o que, incrivelmente, ocorreria uma semana depois.”
Segundo ela, os fatos precisam ser analisados dentro do contexto político da época.
Morte de JK Sempre Foi Cercada por Controvérsias
A versão oficial da ditadura militar afirmava que o Chevrolet Opala em que JK viajava invadiu a pista contrária após ser atingido por um ônibus durante uma tentativa de ultrapassagem.
O veículo colidiu com uma carreta na Via Dutra. JK e seu motorista, Geraldo Ribeiro, morreram no local.
Ao longo das décadas, porém, diferentes investigações levantaram suspeitas de atentado político.
Comissões da Verdade Divergiram da Versão Oficial
Enquanto a Comissão Nacional da Verdade, em 2014, concluiu que não havia provas de participação dos militares na morte de JK, outras comissões chegaram a conclusões diferentes.
Entre elas:
- Comissão Estadual da Verdade de São Paulo;
- Comissão da Verdade de Minas Gerais;
- Comissão Municipal da Verdade de São Paulo.
Esses grupos defenderam a hipótese de atentado político ligado ao contexto repressivo da ditadura militar brasileira.
Operação Condor Volta ao Centro das Discussões
O caso também reacende debates sobre a Operação Condor, ação coordenada entre ditaduras militares da América do Sul entre os anos 1970 e 1980.
O programa envolvia cooperação entre regimes autoritários para perseguir, monitorar e eliminar opositores políticos.
Pesquisadores apontam que a morte de lideranças políticas importantes na região ocorreu em circunstâncias semelhantes durante aquele período.
Governo Lula Reabriu Investigação sobre Morte de JK
Em fevereiro de 2025, o governo federal decidiu reabrir oficialmente a análise do caso, com base em novos elementos técnicos apresentados à Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.
O pedido de reabertura foi feito por:
- Gilberto Natalini, ex-presidente da Comissão Municipal da Verdade de São Paulo;
- Jornalista e pesquisador Ivo Patarra.
Desde novembro de 2024, a relatora Maria Cecília Adão passou a trabalhar em parceria com pesquisadores especializados no tema para desenvolver o novo parecer.
Quem Foi Juscelino Kubitschek
Presidente da República entre 1956 e 1961, Juscelino Kubitschek marcou a história brasileira pelo ambicioso projeto de modernização nacional.
Entre seus principais legados estão:
- A construção de Brasília;
- O Plano de Metas “50 anos em 5”;
- O fortalecimento da indústria automobilística;
- Grandes investimentos em infraestrutura e energia.
Após deixar a Presidência, JK foi eleito senador. Com o golpe militar de 1964, teve os direitos políticos cassados pela ditadura.
Caso pode Mudar Interpretação Histórica sobre a Ditadura
Se aprovado oficialmente, o relatório da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos poderá alterar significativamente a interpretação histórica sobre a morte de JK e ampliar o debate sobre crimes cometidos durante o regime militar brasileiro.
O caso também pode provocar novos pedidos de investigação e revisão histórica envolvendo outros episódios ocorridos durante a ditadura.




















